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Editorial

O trabalho invisível do que não é um festival

O fim de semana materiais adversos não é um festival. Nem pretende ser um pequeno festival entre edições do festival materiais diversos, que regressará em outubro de 2027. É outra coisa.

É o momento de encontro que encerra uma ocupação artística: dez dias em que artistas vivem, investigam, caminham, conversam, experimentam e trabalham em Minde e Alcanena. Se o festival é o momento em que o território se transforma em palco, o fim de semana materiais adversos é um exercício de habitar esse território. Antes de apresentar, ocupa-se. Antes de mostrar, permanece-se. Antes do espetáculo, constroem-se relações com quem já lá vive e com quem vem de fora e olha com admiração. Bibi Dória, Connor Scott, Grilo & Inês Campos, Luísa Saraiva, Marga Alfeirão, Miguel Bonneville & Sofia Dinger, Natacha Campos, Pedro Barreiro, Reina da Mar ocupam territórios e imaginação.

Entre festivais existe um tempo que raramente se vê. Um tempo de pesquisa, de tentativa, de conversa e de espera. Um tempo em que ainda não há espetáculo, mas já há trabalho. Um tempo em que a criação acontece antes de poder ser nomeada. Este fim de semana nasce precisamente da vontade de tornar esse tempo mais visível.

Durante três dias, artistas abrem ao público processos de criação ainda em desenvolvimento. Não apresentam respostas acabadas; partilham perguntas, métodos, hipóteses e fragilidades. Porque acreditamos que a criação não começa na estreia nem termina na última apresentação. Pesquisar também é produzir. Pensar também é trabalhar. Experimentar também é criar. E programar é criar relações. É acompanhar artistas ao longo do tempo, fazê-los regressar, criar confiança, gerar novas ligações e sobrepor camadas de pessoas, lugares e experiências. Mais do que selecionar obras, interessa-nos construir um contexto onde artistas, comunidades, instituições e públicos permaneçam em diálogo. É esse trabalho invisível, tantas vezes lento e tantas vezes ausente das narrativas sobre programação, que sustenta aquilo que mais tarde reconhecemos como programação.

Também por isso, e em parceria com o Cine-Teatro São Pedro, trazemos a duas praças de Minde e Alcanena a única peça acabada do fim de semana: Fantasie minor, de Marco da Silva Ferreira, coreógrafo de renome cujo percurso está ligado à Materiais Diversos. Uma obra vibrante e profundamente política que transforma a energia do clubbing e das danças urbanas num espaço de encontro, resistência e construção coletiva. Entre pulsação, virtuosismo e intimidade, o espetáculo afirma o corpo como território de liberdade. Também por isso, este fim de semana não se organiza em torno de uma atividade principal rodeada de iniciativas paralelas. Constrói-se por camadas que se alimentam mutuamente. O Clube de Espectadores, com Nuno Preto, o grupo da Matéria Viva, que é o nosso Programa de Formação e Capacitação em Artes Performativas: Práticas, Políticas e Ecologias do Fazer, o seminário FUTURΛ, com Anne Kerzerho e Mawena Yehouessi, as residências, as partilhas públicas e a presença de programadores nacionais e internacionais cruzam-se continuamente, formando uma comunidade temporária onde diferentes tempos de trabalho coexistem. As Artistas Acompanhadas da Materiais Diversos, Marga Alfeirão, Piny e Gaya de Medeiros atravessam também este fim de semana, reforçando uma lógica de continuidade e acompanhamento artístico que está no centro do trabalho da Materiais Diversos.

Cada artista habita Minde e Alcanena, conhece pessoas, associações e coletividades, percorre a paisagem e deixa-se transformar pelo contexto, ao mesmo tempo que o transforma. Os espaços e as pessoas deixam de ser cenário para se tornarem matéria viva da criação. Estas relações constroem-se também fora dos momentos de trabalho: à mesa, durante uma refeição partilhada, numa caminhada, numa conversa depois de uma apresentação ou simplesmente no tempo de estar junto. Num momento em que os espaços de convivência parecem cada vez mais raros, interessa-nos criar tempo comum. Acreditamos que o verdadeiro impacto acontece muitas vezes longe das luzes dos palcos: numa residência que ainda não sabe aquilo em que se tornará, numa colaboração futura ou num artista que regressa porque encontrou aqui um lugar onde pode continuar a sua pesquisa. É essa ecologia de continuidade, confiança e convivialidade que procuramos construir.

Este fim de semana só é possível graças à confiança de artistas, da extraordinária equipa, das associações e coletividades locais, das entidades parceiras, mecenas e financiadoras que acreditam que investigar, experimentar e criar relações são formas fundamentais de construir futuro. Um agradecimento especial ao Município de Alcanena, pela visão e pelo compromisso de longo prazo com este projeto, reconhecendo e respeitando a autonomia da Materiais Diversos enquanto estrutura cultural independente. E a todas as novas e antigas parcerias que, com diferentes formas de apoio, continuam a tornar possível este projeto.

Cristina Planas Leitão
Diretora Artística da Materiais Diversos

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